Masculinidade

 Masculinidades – Reconstruindo relações de igualdade.

Flávio Urra, 2012

Psicólogo Social

Em diferentes situações, as relações desiguais de gênero são causa de tratamentos discriminatórios, diversas formas de violências, exposição a DST, entre outras vulnerabilidades, em decorrência da ainda vigente cultura que exclui as mulheres da cidadania plena.

O crescimento do número de mulheres HIV positivas entre as que são casadas ou que tem parceiros fixo – destacando as que têm mais de 50 anos e as jovens até os 18 – indica o quanto continua sendo difícil à negociação do preservativo nas faixas etárias com índice maior de dependência econômica, o que as vulnerabiliza diante dos parceiros.

Os números relativos à violência também ilustram a importância do exercício desigual de poder como causa destas ocorrências.

Cerca de 300 estudos no mundo, muitos deles na América Latina, apontam que entre as mulheres entrevistadas, 20 a 50% afirmaram que foram vítimas de violência física exercida por seu parceiro. No Brasil, um número estimado em 300.000 mulheres relatam serem vítimas da violência de seus maridos ou companheiros a cada ano.[1] Mais da metade de todas as mulheres assassinadas no Brasil foram mortas por seus parceiros íntimos. Além disso, 20% das mulheres adultas brasileiras sofrem violência do marido ou companheiro a cada ano[2]. Estudo em bairros de classe média do Rio de Janeiro registrou que quase 13% das mulheres admitiram ter sofrido violência de um parceiro íntimo em 1999[3].

A maioria dos casos de violência provocada por homens contra mulheres não tem origem numa causa especifica. O modelo de masculinidade hegemônica, decorrente da construção social e histórica das relações estabelecidas entre homens e mulheres (relações de gênero), demonstra ser um dos fatores mais importantes na determinação da violência contra a mulher. Podemos encontrar homens autores de violência contra mulheres em qualquer classe social, em diferentes culturas e raças. Entre os diversos fatores que a ocasionam está o contexto sócio-cultural estabelecido na desigualdade de poder e de direitos entre homens e mulheres. Um contexto cultural violento pressiona os homens a exercerem a masculinidade de forma competitiva e violenta, de modo a obter lucro, poder e sucesso a qualquer custo. Todos os dias homens matam e morrem para não perderem sua “masculinidade”.

A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a violência contra a mulher (ou Convenção de Belém do Pará), aprovada em 1994 pela OEA, constitui uma vitória fundamental do movimento de mulheres e homens no continente americano. Na introdução do relatório produzido pelo Comitê Latino Americano dos Direitos da Mulher (CLADEM), ressalta-se a relevância desta Convenção no reconhecimento da violência contra a mulher como violação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais[4]. Portanto, a violência de homens contra mulheres é um problema de saúde pública e direitos humanos que merece atenção especial.

Gênero, segundo a historiadora norte americana Joan Scott[5] refere-se às diferenças construídas socialmente nas relações entre homens e mulheres que variam por contexto e situação. Scott formula gênero como categoria de análise, vendo como as identidades são construídas historicamente através dos discursos e como diferentes sentidos são atribuídos à diferença sexual.

A utilização do referencial teórico feminista para discutir masculinidades, utilizando conceitos de Joan Scott, Heleieth Saffioti[6] e Maria Cristina Ravazzola[7], é fundamental para não utilizar definições de masculinidade que procuram justificar e naturalizar comportamentos masculinos geradores de violência. O que se busca com esse trabalho com homens é a responsabilização e conscientização do comportamento violento da maioria deles, tendo como proposta refletir sobre a cultura patriarcal autoritária para modificar práticas machistas.

Existem distintas definições para o que se conceitua como homem. O conceito aqui apresentado é que nós, homens e mulheres, enquanto espécie humana somos semelhantes, apresentamos características de personalidade tanto daquilo que usualmente identificamos como masculino quanto daquilo que chamamos de feminino. A identidade sexual é construída sócio-historicamente e o que chamamos de masculinidades seriam as formas como são exercidos esses papeis sociais de ser homem.

Relações de gênero são relações de poder e, tanto gênero, quanto masculinidade são noções fluidas e situacionais, que variam dependendo da forma como as relações se estabelecem em determinada situação e, em como a interação com a sociedade vai definindo os papéis dos sujeitos.

Mulheres e homens, em nossa sociedade, têm seu espaço simbólico criado à priori, com determinadas características e certas funções, cercados por um repertório de comportamentos esperados para sua conduta. Em nossa cultura é enfatizado nos homens serem corajosos, fortes, destemidos, honrados, valentes, machos, viris, ousado, audacioso e outras características. Sendo negados todos seus opostos como o medo, fragilidade, vergonha, sensibilidade, impotência e cautela.

Homens e mulheres esperam que seus filhos adotem certos comportamentos em detrimento de outros. Meninos se reúnem em espaços e brincadeiras masculinas, exercitando os adjetivos acima, bem como competição, força, poder, violência, discriminação e abuso.

Em seu texto “A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia”, Daniel Welzer-Lang[8] descreve vários espaços de exercício de masculinidade dentro da cultura ocidental, como o futebol e o bar. Os homens aprendem violência, sobretudo, com outros homens, um dos momentos em que as mulheres ensinam violência aos seus meninos é no momento em que batem neles, demonstrando em seu ato que a violência é permitida, uma violência com amor e para o bem da própria criança.

Também, a TV apresenta seus heróis, em sua maioria, com perfil violento, tanto em desenhos, novelas e filmes, sempre uma violência justificada e legitimada dentro do contexto. Depois dessa formação violenta é possível entender porque tantos homens jovens são atraídos para o crime e o tráfico de drogas, onde assim, podem exercer todas as características apresentadas do que se espera de um homem.

Outra autora referência nos estudos sobre masculinidades é Raewyn Connell, mulher transexual nascida Robert William Connell, sua obra “Masculinities” de 1995 é considerada um dos referenciais teóricos mais marcantes no campo de estudos sobre masculinidade. A autora utiliza tanto a tradição clínica freudiana, como aportes da Psicologia Social, bem como as Ciências Sociais: Antropologia, História e Sociologia.

Connell[9] utiliza o conceito de masculinidades, no plural, para se referir aos vários papéis sociais desempenhados pelos homens, alguns aceitos e legitimados, outros, que não se enquadram nem no masculino nem no feminino socialmente aceito. Além disso, critica definições essencialistas e naturalizantes que procuram outorgar traços definitivos ao que se chama “homem” ou “mulher”, rejeita que a sexualidade adulta seja definida pela natureza, assim como o faz Freud.

Connell, assim como Scott, apresenta a masculinidade e a feminilidade como conceitos relacionais, interdependentes, construídos sócio-historicamente. Considera, assim como outros autores (Freud; Melanie Klein; Jung), que os aspetos masculinos e femininos coexistem em cada homem e cada mulher. Discordando das teorias de papéis sexuais que diferenciavam dois desempenhos, um masculino e um feminino.

Connell se utiliza do conceito de práticas masculinas e que estas constroem padrões de masculinidade na ordenação de gênero nas sociedades ocidentais. Utiliza o conceito de hegemonia que se refere a uma configuração de gênero construída no contexto sócio-histórico que incorpora argumentos que, produzidos e legitimados pelo patriarcado, garantem a posição dominante do homem e a subordinação da mulher. Que essa subordinação se refere a posições ocupadas na esfera pública, econômica ou social e que em determinados contextos estariam subordinadas a outros homens em posições de maior poder. Identifica, também, uma cumplicidade entre os homens no que se refere a identificação dos homens com os modelos hegemônicos, que mesmo sem usufruir dos mesmos privilégios que aqueles, podem em outras situações se beneficiar do poder legitimado. Refere-se, ainda, a uma marginalização que se configura em grupos que devido alguma característica social ficam subordinados a outros grupos dominantes.

Quanto ao poder e a dominação usamos o conceito de John Thomson (1995)[10], o autor conceitua que toda pessoa situada dentro de um contexto socialmente estruturado tem, em virtude de sua localização, diferentes quantidades e diferentes graus de acesso a recursos disponíveis. Essas localizações sociais, associadas às suas posições, num campo social ou instituição, fornecem diferentes graus de poder aos indivíduos: poder de tomar decisões, de conseguir objetivos e de realizar interesses.

Porém, para Thompson (1995), poder e dominação não se confundem: o autor define dominação como uma relação na qual determinada pessoa ou grupo expropria poder de outra pessoa ou grupo. Ou, ainda, quando relações são sistematicamente assimétricas, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes. Como na ideologia machista.

Para o autor, as formas simbólicas não são ideológicas em si mesmas, mas o são quando, em situações específicas, servem para sustentar ou estabelecer relações de dominação: assim, “estudar a ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação” (THOMPSON, 1995, p. 76). Para o autor, estabelecer significa que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação. Sustentar significa que o sentido pode reproduzir relações de dominação geradas em outros campos sociais: por exemplo, edulcorar o poder masculino conquistado pela força, criando condições para sua aceitação pelos dominados.

Acreditamos que a análise crítica e o projeto ético-político de buscar relações justas, equidade e luta por direitos, seja capaz de propiciar transformações sociais e assim, construir relações mais justas entre homens e mulheres, assim como no trabalho, com distribuição de tarefas produtivas e reprodutivas com equidade. Bem como a construção de um processo reflexivo e sócio-educativo que potencialize nos homens características como a paternidade responsável, bem como a capacidade de construir relações afetivas saudáveis, com maior capacidade de administrar o cuidado com o outro(a), bem como desenvolver hábitos de prevenção e planejamento da vida sexual e reprodutiva.

 

 


[1] “Where The Boys Are?:Attitudes Related to Masculinity, Fatherhood and Violence Toward Women Among Low Income Adolescent and Young Adults Males in Rio de Janeiro, Brasil” – Gary Barker e Irene  Loewenstein, 1997, Youth and Society, vol. 29/2,  p. 166.

[2] Heise, L. (1994). Gender-based abuse: The global epidemic. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro 10 (Supl. 1). 1994. 135-145.

[3] “Where The Boys Are?: Attitudes Related to Masculinity, Fatherhood and Violence Toward Women Among Low Income Adolescent and Young Adults Males in Rio de Janeiro, Brasil” – Gary Barker e Irene  Loewenstein, 1997, Youth and Society, vol. 29/2,  p. 166.

[4] PITANGUY, J. (2002). Gênero, cidadania e direitos humanos. In: Bruschini, C . e Unbehaum, S. (orgs) – Gênero, democracia e sociedade brasileira. São Paulo: FCC/Editora 34. pp. 109-120.

[5] SCOTT, J. Gênero: Uma categoria útil de Análise Histórica – 1995.

[6] SAFFIOTI, H. I. B. Violência de Gênero – lugar da práxis na construção da subjetividade. Lutas Sociais, n° 2, PUC/SP – 1997.

[7] RAVAZZOLA, M. C. Historias Infames: los maltratos e las relaciones. Buenos Aires, Paidós – 2003.

[8] WELZER-LANG, D. A construção do masculino: dominação das mulheres homofobia. Tradução de Miriam Pillar Grossi – 1999.

[9] Silvio de Almeida Carvalho Filho. A masculinidade em Connell: os mecanismos de pensamento articuladores de sua abordagem teórica. XIII Encontro de História Anpuh-Rio. Identidades.

[10] THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era de meios de comunicação de massa. 6ª edição, Petrópolis: Ed. Vozes, 1995.

 

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